ASSISTÊNCIA FARMACÊUTICA

Caso Benício: hospital operava sem farmacêutico para validação da prescrição e falha estrutural entra no centro da investigação

Ausência de barreiras técnicas na conferência de medicamento de alta vigilância integra cadeia de falhas que resultou na morte da criança

Redação Provalfar

Atualizada em
03
/
05
/
2026
21:45

A investigação sobre a morte de um menino de 6 anos após administração inadequada de adrenalina em ambiente hospitalar trouxe à tona um elemento estrutural que vai além da conduta individual dos profissionais envolvidos, a ausência de farmacêutico na unidade no momento do atendimento.

De acordo com o inquérito policial, o hospital funcionava com equipe reduzida e sem a presença de farmacêutico responsável pela conferência da prescrição médica, etapa considerada essencial nos protocolos de segurança do uso de medicamentos, especialmente aqueles classificados como de alta vigilância.

A medicação, adrenalina, foi prescrita para administração intravenosa, quando o correto, segundo a apuração, seria por inalação. Sem uma etapa independente de validação técnica, a prescrição seguiu diretamente para execução, resultando na aplicação inadequada e na rápida piora do quadro clínico da criança.

A ausência de dupla checagem qualificada, que inclui tradicionalmente a atuação do farmacêutico em ambientes hospitalares, é apontada como uma das falhas que permitiram a concretização do erro.

Falha estrutural e responsabilização institucional

O inquérito não se limitou à responsabilização individual. A polícia também indiciou os diretores da unidade hospitalar, destacando que o funcionamento sem equipe adequada, configura falha estrutural relevante.

Segundo a investigação, a unidade operava com número insuficiente de profissionais e sem mecanismos adequados de segurança assistencial, cenário associado à tentativa de redução de custos operacionais.

Nesse contexto, a ausência do farmacêutico deixa de ser um detalhe administrativo e passa a ser tratada como fator diretamente relacionado ao desfecho do caso.

Medicamentos de alta vigilância exigem controle rigoroso

A adrenalina é classificada como medicamento de alta vigilância, com potencial elevado de causar danos graves quando utilizada de forma inadequada. Protocolos assistenciais recomendam múltiplas barreiras de segurança, incluindo:

  • validação da prescrição
  • conferência de dose e via de administração
  • dupla checagem antes da administração
  • acompanhamento clínico

A inexistência de uma dessas etapas, especialmente a validação técnica independente, amplia significativamente o risco de erro.

Cadeia de eventos

O caso envolve ainda a responsabilização da médica que realizou a prescrição e da profissional de enfermagem que executou a administração. No entanto, a investigação aponta que o evento não pode ser analisado de forma isolada, mas sim como resultado de uma sequência de falhas.

A ausência do farmacêutico, nesse cenário, surge como um dos pontos críticos na quebra das barreiras de segurança do sistema.

Implicações para a segurança do paciente

O episódio reforça um debate recorrente na área da saúde, a presença do farmacêutico em ambiente hospitalar não se limita à gestão de estoque ou logística de medicamentos, mas integra diretamente a estrutura de segurança assistencial.

A validação de prescrições, a análise de interações e a conferência de vias de administração são etapas que compõem o cuidado clínico e funcionam como mecanismo de prevenção de eventos adversos.

A investigação aponta que, na ausência desse profissional, o sistema se torna mais vulnerável a erros evitáveis, especialmente em situações que envolvem medicamentos de alto risco.

O caso segue para análise do Ministério Público e poderá ser submetido a julgamento, com possibilidade de responsabilização criminal dos envolvidos.

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