Categoria considera contraditório discurso da entidade sobre proteção às pequenas farmácias, enquanto grandes redes ampliam concorrência agressiva com maior poder de compra e pressionam independentes a deixarem o mercado
Redação Provalfar
Durante audiência pública realizada na Comissão de Finanças e Tributação da Câmara dos Deputados sobre o PL 1559/21, a consultora da Abrafarma, Laura Schertel, professora da UnB e do IDP, afirmou que a criação de um Piso Salarial Nacional para farmacêuticos representa uma “intervenção bastante relevante no mercado” e uma limitação ao “conceito básico do livre mercado”. Segundo ela, embora a proposta tenha “boa intenção”, o Brasil possui diferenças regionais dramáticas e a imposição de um piso nacional uniforme poderia gerar impactos econômicos negativos, especialmente sobre pequenas e médias farmácias.
As declarações geraram reação entre farmacêuticos, que consideram contraditório o argumento utilizado pela entidade ao concentrar a discussão apenas no impacto às pequenas farmácias, sem mencionar que muitas grandes redes associadas ao setor já praticam salários iguais ou superiores aos valores previstos no PL 1559/21. A categoria também aponta que as pequenas farmácias vêm sofrendo há anos justamente com a concorrência agressiva das grandes redes, especialmente na disputa por preços de medicamentos, perfumaria e produtos de conveniência. Segundo farmacêuticos, o maior poder de compra das grandes redes permite aquisição de produtos com valores muito menores, criando um cenário considerado desigual para pequenos empresários e pressionando farmácias independentes a deixarem o mercado.
O debate também ocorre em meio ao crescimento acelerado das grandes redes farmacêuticas brasileiras. Dados divulgados pela própria Abrafarma apontam que o setor de varejo farmacêutico consolidou sua trajetória de expansão em 2025, com faturamento recorde de R$ 118,5 bilhões entre as empresas associadas, representando crescimento de 14,9% em relação ao ano anterior. O comércio eletrônico movimentou R$ 21,58 bilhões, reforçando a digitalização do setor e a expansão das grandes redes. Mesmo representando cerca de 11% do total de farmácias do país, as 29 redes ligadas à associação, que somam mais de 11,6 mil lojas, concentram mais da metade do mercado nacional de medicamentos, ampliando ainda mais a pressão competitiva sobre farmácias independentes e pequenos estabelecimentos.
Farmacêuticos também afirmam que parte das pequenas farmácias ainda falha em investir em serviços farmacêuticos, assistência clínica e valorização profissional, fatores que poderiam funcionar como diferencial competitivo frente às grandes redes. Segundo relatos da própria categoria, muitas empresas ainda não se enxergam efetivamente como estabelecimentos de saúde e mantêm baixa remuneração para farmacêuticos. Já nas grandes redes, embora os salários sejam frequentemente superiores aos praticados em pequenas farmácias, profissionais denunciam acúmulo de funções, metas excessivas e desvio de função. Para farmacêuticos que acompanham o debate do PL 1559/21, o problema não está no farmacêutico custar caro, mas no fato de o valor técnico, sanitário e econômico desses profissionais ainda não ser plenamente reconhecido pelo setor, inclusive pelo potencial que a assistência farmacêutica e os serviços clínicos possuem para gerar resultados financeiros, fidelização de pacientes e ampliação da rentabilidade das próprias farmácias.
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