Congresso passa a ter dois deputados federais farmacêuticos, enquanto a proteção dos direitos trabalhistas e o avanço dos interesses comerciais na saúde exigem maior mobilização política da categoria
Redação Provalfar
O levantamento do Provalfar identificou dois farmacêuticos eleitos entre os candidatos acompanhados nas Eleições 2026, Ricardo Coutinho (PT-PB) e Alice Portugal (PCdoB-BA), ambos para a Câmara dos Deputados.
A revisão foi necessária após a confirmação de que André da Droga Vale (PP-AC), eleito deputado estadual, não é farmacêutico. A biografia oficial da Assembleia Legislativa do Acre informa que André é formado em Sistemas de Informação pela Universidade Federal do Acre (UFAC) e que seu pai, Pedro Moura, era farmacêutico. André assumiu posteriormente a direção da Droga Vale.
Reeleita, Alice Portugal mantém uma trajetória diretamente ligada à profissão. Farmacêutica bioquímica formada pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), participou de mobilizações em defesa da Lei 13.021/2014, que reconheceu a farmácia como estabelecimento de saúde, e de debates contra tentativas de flexibilização da presença obrigatória do farmacêutico nos estabelecimentos.
Ricardo Coutinho, eleito pela Paraíba, também é farmacêutico e retorna à representação parlamentar em um cenário político mais complexo para pautas relacionadas ao trabalho, à saúde e à valorização profissional.
O resultado eleitoral coloca novamente em discussão a capacidade da categoria de transformar reivindicações profissionais em força política. As urnas não permitem saber como os farmacêuticos votaram nem atribuir o desempenho dos candidatos exclusivamente ao apoio ou à falta de apoio da própria profissão. O número reduzido de representantes eleitos, porém, evidencia a necessidade de ampliar organização, participação e pressão institucional.
A nova composição do Congresso torna essa articulação ainda mais relevante. Partidos de direita e centro-direita ampliaram espaço na Câmara e, principalmente, no Senado, alterando a correlação de forças para propostas relacionadas aos direitos dos trabalhadores.
Um dos exemplos é o fim da escala 6×1. Depois do avanço da proposta na Câmara, a discussão passou a enfrentar um ambiente mais desfavorável no Senado. Governistas já avaliam que o crescimento da direita na Casa pode dificultar a votação da redução da jornada. Para trabalhadores do comércio e do setor farmacêutico, submetidos frequentemente a escalas extensas, domingos e feriados, o destino da proposta tem impacto direto sobre jornada, descanso e qualidade de vida.
A representação política da profissão, entretanto, não se resume às relações de trabalho.
Na assistência farmacêutica, o avanço da lógica comercial sobre o cuidado em saúde também exige acompanhamento permanente. Metas de venda, rankings de desempenho, programas de fidelidade, marketplaces, entregas cada vez mais rápidas e a expansão de serviços dentro das farmácias aumentam a pressão para aproximar o medicamento da lógica de consumo de produtos comuns.
Nesse ambiente, o risco é reduzir o farmacêutico a um agente de vendas, retirando tempo, estrutura e autonomia necessários para exercer justamente a função que diferencia a farmácia de qualquer outro comércio, avaliar prescrições, orientar pacientes, prevenir riscos, promover o uso racional de medicamentos e recusar uma dispensação quando ela não for segura ou legal.
A autorização para instalação de farmácias e drogarias em supermercados reforça esse alerta. A legislação aprovada em 2026 manteve exigências importantes, como espaço físico delimitado e segregado, presença de farmacêutico durante todo o funcionamento e proibição da exposição de medicamentos em gôndolas externas ao espaço da farmácia.
Essas garantias, entretanto, precisam existir também na prática. Farmácia não pode ser reduzida a ponto de venda, medicamento não pode ser tratado como mercadoria comum e o farmacêutico não pode ser pressionado a colocar metas comerciais acima do cuidado em saúde.
É nesse cenário que a participação política da categoria ganha importância. Ter farmacêuticos ocupando cargos eletivos pode ampliar a presença da profissão nos espaços de decisão, mas a formação profissional, isoladamente, não garante compromisso com suas reivindicações.
A força política da categoria também depende da atuação coletiva fora do Parlamento, fortalecimento dos sindicatos, mobilização dos conselhos profissionais, acompanhamento das votações no Congresso e cobrança permanente dos parlamentares, sejam eles farmacêuticos ou não.
Jornada de trabalho, piso salarial, condições de trabalho, autonomia técnica, assistência farmacêutica e uso racional de medicamentos são temas definidos por decisões políticas. Quanto menor a capacidade de organização da categoria, maior o espaço para que interesses econômicos avancem sem contraponto.
O resultado das Eleições 2026, portanto, vai além da quantidade de farmacêuticos eleitos. Ele expõe o desafio de transformar uma categoria com centenas de milhares de profissionais em uma força organizada e capaz de influenciar as decisões que definirão o futuro da profissão.
Nota de atualização: esta matéria foi revisada após a confirmação de que André da Droga Vale, inicialmente incluído no levantamento, é formado em Sistemas de Informação e não em Farmácia. Com a correção, os farmacêuticos eleitos identificados pelo Provalfar são Alice Portugal e Ricardo Coutinho.
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