VAREJO FARMACÊUTICO

Dados afastam má gestão como principal explicação para fechamento de farmácias independentes

Expansão das grandes redes para o interior, avanço do associativismo e entrada dos supermercados redesenham a concorrência no varejo farmacêutico

Redação Provalfar

Atualizada em
14
/
09
/
2026
11:51

O fechamento de farmácias independentes voltou ao centro do debate sobre o varejo farmacêutico. Recentemente, a Abradilan publicou que mais de 6 mil farmácias fecham no Brasil a cada 24 meses e pontuou as dificuldades de gestão entre os principais problemas enfrentados pelos pequenos estabelecimentos.

A gestão é um componente relevante para a sobrevivência de qualquer negócio. Mas dados do próprio setor mostram que ela, isoladamente, não explica o que está acontecendo com as independentes.

Levantamento da Close-Up International divulgado pela Abradilan em abril apontou 9.126 estabelecimentos encerrados nos 12 meses até fevereiro de 2026. Independentes e pequenas redes concentraram 91% dos fechamentos, enquanto as grandes redes extinguiram apenas 118 unidades.

Dois meses depois, outra análise publicada pela própria Abradilan mostrou perda de 1.224 farmácias independentes em 12 meses. O número caiu de 53.783 para 52.559 estabelecimentos. No mesmo período, as grandes redes avançaram de 14.375 para 14.740 lojas e as associativistas saltaram de 25.915 para 27.172 unidades.

Na mesma publicação, Filipe Campos, da Close-Up International, relacionou o fenômeno à concorrência e afirmou que as independentes vêm perdendo espaço principalmente para associações e grandes redes que passaram a abrir lojas em regiões residenciais. A análise também aponta menor acesso a crédito e poder de negociação e prevê maior concentração do mercado em empresas mais estruturadas.

Grandes redes crescem acima do mercado

Enquanto independentes encerram atividades, os grandes grupos apresentam trajetória diferente.

As redes associadas à Abrafarma faturaram R$ 118,5 bilhões em 2025, crescimento de 14,9%, e terminaram o ano com 11.688 pontos de venda, alta de 5,9%. Embora representassem cerca de 11% dos PDVs do país, respondiam por aproximadamente 53% das dispensações de medicamentos, segundo a própria entidade. Os números constam do Ranking Abrafarma de 2025.

A diferença aparece de maneira ainda mais clara quando se compara o desempenho individual das lojas.

Em levantamento publicado em 11 de setembro, a Close-Up comparou a venda média dos diferentes modelos de PDV. Entre as redes da Abrafarma, lojas maduras faturaram em média R$ 879 mil por mês. Nas independentes, a média foi de R$ 70 mil.

Uma unidade madura das grandes redes movimenta, portanto, mais de 12 vezes o valor médio de uma independente.

No terceiro ano de funcionamento, a distância continua expressiva, R$ 960 mil mensais nas redes da Abrafarma contra R$ 82 mil nas independentes. O próprio levantamento registra que o varejo farmacêutico movimentou R$ 262,7 bilhões nos 12 meses até julho de 2026 e que as grandes redes dominam quase metade do mercado.

Grandes redes avançam para o interior

A disputa também está mudando geograficamente.

Em setembro de 2025, a própria Abrafarma apontou as cidades pequenas como nova fronteira de expansão. Na ocasião, seu CEO, Sergio Mena Barreto, afirmou que as associadas estavam presentes em 1.190 cidades, diante de mais de 5.500 municípios brasileiros, e que havia “muita cidade para ser ocupada”. Nos municípios com até 50 mil habitantes, a participação dessas redes era de apenas 15%.

Esses municípios são justamente um território historicamente importante para as independentes. Em entrevista posterior, o próprio dirigente da Abrafarma reconheceu que, nas cidades pequenas, a farmácia dominante é independente.

A expansão já pode ser observada na prática. A RD Saúde, dona de Raia e Drogasil, chegou a 600 municípios após entrar em 24 novas cidades em apenas sete meses, com avanço declarado sobre cidades pequenas e médias do interior. Entre os novos mercados estavam Maracaju, João Pinheiro, Cajazeiras, Brotas e Itapipoca. O plano de expansão foi divulgado pela própria Abrafarma.

Os dados mais recentes reforçam essa interiorização. Das 7.848 farmácias abertas nos 12 meses até julho de 2026, 5.119 foram instaladas em municípios com até 300 mil habitantes.

Associativismo surgiu para reduzir a desvantagem competitiva das independentes

O crescimento do associativismo também ajuda a compreender a transformação do mercado.

A união entre pequenos estabelecimentos não surgiu simplesmente como uma resposta a problemas internos de administração. Há registros históricos da própria Febrafar mostrando que a dificuldade de competir com as grandes redes levou empresários independentes a unir forças para obter poder de compra, mídia, tecnologia e estrutura capazes de reduzir a diferença competitiva.

Outra publicação histórica da entidade é ainda mais direta. Segundo a Febrafar, com a expansão das grandes redes, pequenas e médias farmácias tiveram de buscar alternativas para permanecer no mercado e encontraram no associativismo uma forma de aumentar a competitividade.

A própria história institucional mostra esse objetivo. A Febrafar foi criada em 2000 por 16 redes associadas e passou a desenvolver ferramentas de gestão, compras, fidelização, inteligência e tecnologia para fortalecer o varejo independente. A entidade afirma atualmente que seu objetivo é impulsionar o crescimento das redes associadas.

O resultado desse movimento ganhou outra dimensão. Em 2025, a Febrafar comemorou ter se tornado o segundo maior agrupamento do varejo farmacêutico em faturamento, atrás apenas da Abrafarma. A entidade alcançou R$ 39,68 bilhões em vendas e 16,9% do mercado e afirmou que sua estrutura permite às associadas competir em pé de igualdade com grandes grupos.

Em setembro de 2026, a federação chegou a 75 redes e mais de 20 mil farmácias, ampliando uma estrutura que oferece tecnologia, informação, negociação e melhores condições comerciais aos associados. A própria Febrafar relaciona essa expansão ao aumento da competitividade das farmácias independentes.

Farmácias em supermercados podem ampliar pressão competitiva

Um novo elemento começa a entrar nessa disputa. A Lei nº 15.357, sancionada em março de 2026, passou a permitir a instalação de farmácias e drogarias dentro da área de venda de supermercados. A operação deve funcionar em espaço físico delimitado, segregado e exclusivo, obedecer às mesmas exigências sanitárias e técnicas aplicáveis às demais farmácias e manter farmacêutico durante todo o horário de funcionamento.

A mudança é recente e seus efeitos sobre a estrutura do mercado ainda não podem ser medidos. Mas o ingresso de grandes grupos supermercadistas no varejo farmacêutico pode se tornar um fator adicional de pressão sobre as independentes, principalmente porque essas empresas já dispõem de escala, logística, fluxo de consumidores, capacidade de investimento e poder de negociação com fornecedores. Especialistas ouvidos pelo UOL apontaram justamente o risco de uma concorrência desigual, diante do maior poder de barganha das grandes redes de supermercados, com potencial de fragilizar farmácias independentes e de pequeno porte.

O movimento já saiu do campo das hipóteses. Em julho, o Assaí lançou sua própria operação farmacêutica, a Assaí Farma, após a entrada em vigor da nova lei. A companhia prevê 25 farmácias no Estado de São Paulo ainda no segundo semestre de 2026, em uma fase piloto que poderá servir de base para expansão futura para outros estados.

Não se trata de uma operação terceirizada. O Assaí decidiu desenvolver uma farmácia 100% própria justamente para capturar as sinergias comerciais, operacionais e logísticas de sua estrutura. A companhia possui mais de 310 lojas e informa receber aproximadamente 40 milhões de clientes por mês. A primeira Assaí Farma foi inaugurada em 16 de julho, na unidade Anhanguera, em São Paulo, com aplicativo próprio integrado ao Meu Assaí e previsão de serviços farmacêuticos.

A decisão já vinha sendo tratada pela empresa como uma nova avenida de crescimento. Ainda em novembro de 2025, antes da aprovação da lei, o Assaí apresentou a entrada no segmento farmacêutico a investidores como parte de seu plano estratégico para 2026 e indicou que uma eventual mudança legislativa permitiria levar as farmácias para dentro das lojas. A nova legislação tornou essa possibilidade concreta poucos meses depois.

Esse movimento merece atenção porque acrescenta um concorrente de grande escala a um mercado no qual as independentes já enfrentam expansão das grandes redes de drogarias e crescimento do associativismo. Como a autorização legal tem apenas alguns meses, ainda é cedo para medir quantas redes supermercadistas seguirão o mesmo caminho. Mas a entrada do Assaí mostra que grandes grupos do varejo alimentar já identificaram o segmento farmacêutico como oportunidade de expansão.

Problema vai além da gestão

Os dados não eliminam a importância da gestão. Mas mostram que reduzir o fechamento das independentes a esse fator deixa de fora uma mudança estrutural que o próprio setor reconhece.

Há, de um lado, milhares de pequenos estabelecimentos encerrando atividades. Do outro, grandes redes ampliam faturamento, número de lojas, participação de mercado e presença em cidades antes dominadas por negócios independentes.

Entre esses dois extremos, cresce justamente o associativismo, criado para proporcionar às pequenas farmácias parte da escala, tecnologia, poder de negociação e inteligência de mercado disponíveis aos grandes grupos.

A própria Abradilan já reconheceu que quanto mais competitivo o mercado, maior o fechamento de lojas independentes, além de registrar que esses estabelecimentos vêm perdendo espaço para associações e grandes redes.

Agora, uma nova frente começa a se abrir com a entrada de grandes grupos supermercadistas no segmento farmacêutico. Ainda não é possível mensurar seu impacto, mas o movimento amplia o número de competidores dotados de escala, capital, logística e grande fluxo de consumidores.

O cenário, portanto, é mais amplo que uma discussão sobre eficiência administrativa. O fechamento das farmácias independentes acontece ao mesmo tempo em que grandes redes crescem, avançam sobre novos territórios e novos grupos de grande porte passam a disputar um mercado cada vez mais concentrado.

‍

LEIA TAMBÉM

Biomédicos ocupam 40% das RTs de laboratórios no Brasil, segundo CFBM
CATEGORIAS
ANVISA
ASSISTÊNCIA FARMACÊUTICA
CONSELHOS PROFISSIONAIS
Direito Previdenciário
DISTRITO FEDERAL
Eleições 2026
Farmacêutico Paliativista
Farmácia Magistral
FARMÁCIA POPULAR
Governo Federal
Inteligência Artificial
Justiça do trabalho
Legislação Farmacêutica
MERCADO FARMACÊUTICO
Pautas da Categoria
PISO SALARIAL DOS FARMACÊUTICOS
Política Farmacêutica
Projeto de lei
REGULAÇÃO FARMACÊUTICA
SERVIÇO PÚBLICO
STF
TCU
TST
Últimas Notícias
VALORIZAÇÃO FARMACÊUTICA
VAREJO FARMACÊUTICO
colunista

ver mais
Instagram
@Provalfar
Contato

Fale com o Provalfar

Tem dúvidas, sugestões ou quer falar sobre pautas da categoria farmacêutica? Nossa equipe está pronta para ouvir você. Preencha o formulário ou entre em contato pelos nossos canais de atendimento.

provalfar@gmail.com
@provalfar
Obrigado! Em breve entraremos em contato :)
Oops! Algo de errado aconteceu, envie o formulário novamente.
PROVALFAR
Informação estratégica para farmacêuticos sobre a atuação e o mercado profissional no Brasil
PROVALFAR NAS REDES
institucional
homequem somoscontatodúvidaspolíticas de privacidade
CATEGORIAS
ANVISA
ASSISTÊNCIA FARMACÊUTICA
CONSELHOS PROFISSIONAIS
Direito Previdenciário
DISTRITO FEDERAL
Eleições 2026
Farmacêutico Paliativista
Farmácia Magistral
FARMÁCIA POPULAR
Governo Federal
Inteligência Artificial
Justiça do trabalho
Legislação Farmacêutica
MERCADO FARMACÊUTICO
Pautas da Categoria
PISO SALARIAL DOS FARMACÊUTICOS
Política Farmacêutica
Projeto de lei
REGULAÇÃO FARMACÊUTICA
SERVIÇO PÚBLICO
STF
TCU
TST
Últimas Notícias
VALORIZAÇÃO FARMACÊUTICA
VAREJO FARMACÊUTICO
comercial
anunciepost patrocinado
© 2026 Provalfar
Desenvolvido cuidadosamente por Digital Bloom

PROVALFAR

HOMEQUEM SOMOSCONTATONOTÍCIASPAUTAS DA CATEGORIA