Levantamentos revelam que 61% dos congressistas eleitos em 2026 declararam patrimônio milionário; nova composição poderá influenciar pautas trabalhistas e direitos dos farmacêuticos
Redação Provalfar
As eleições de 2026 ampliaram a presença de empresários e partidos de direita no Congresso Nacional. Entre os 513 deputados federais eleitos, 61 declararam ser empresários, representando 11,9% das cadeiras da Câmara. É a segunda ocupação mais frequente, atrás dos 201 parlamentares que informaram exercer o cargo de deputado. Em 2022, haviam sido eleitos 47 empresários, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) divulgados pela CNN Brasil.
Os advogados aparecem na sequência, com 55 eleitos, seguidos pelos médicos, com 30. Como o levantamento considera a ocupação principal declarada, os números não identificam necessariamente todos os parlamentares que possuem empresas ou formação em outras áreas.
O avanço empresarial ocorre paralelamente ao fortalecimento da direita. Segundo o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP), os partidos classificados à direita terão 260 dos 513 deputados federais e 48 dos 81 senadores, formando maioria nas duas Casas a partir de 2027.
O Partido Liberal (PL) terá a maior bancada individual tanto na Câmara, com 121 deputados, quanto no Senado, com previsão de 28 integrantes. A federação PT-PCdoB-PV ocupará a segunda posição na Câmara, com 88 representantes.
Outro dado chama a atenção para o perfil econômico dos eleitos. De acordo com levantamento da CNN Brasil, 61% dos 567 parlamentares eleitos para a Câmara e o Senado declararam patrimônio igual ou superior a R$ 1 milhão à Justiça Eleitoral.
A concentração patrimonial e o crescimento da representação empresarial levantam discussões sobre os diferentes interesses presentes no Legislativo. Entretanto, a ocupação profissional ou a condição econômica de um parlamentar não determina, isoladamente, seu posicionamento em votações.
O que está em jogo para os farmacêuticos?
A nova composição do Congresso terá influência sobre projetos relacionados à remuneração, vínculos empregatícios, negociação coletiva e proteção trabalhista. A relevância dessas pautas é reforçada pelo perfil profissional da categoria. Segundo dados divulgados pela Federação Nacional dos Farmacêuticos (Fenafar), cerca de 70% dos farmacêuticos atuam em farmácias e outros 20% em diferentes áreas do setor privado, o que evidencia a importância das relações de trabalho e das garantias trabalhistas para a profissão.
O cenário também ganha relevância após a promulgação, na sexta-feira (16), da Emenda Constitucional nº 141/2026, que estabelece dois dias de descanso semanal remunerado e redução progressiva da jornada máxima para 40 horas semanais, sem redução salarial. A implementação e eventuais propostas futuras sobre jornada e contratação continuarão exigindo acompanhamento.
Enquanto o empresariado amplia sua presença no Legislativo, a categoria farmacêutica contará com dois profissionais de formação em Farmácia na Câmara, Alice Portugal (PCdoB-BA) e Ricardo Coutinho (PT-PB), conforme levantamento do Conselho Federal de Farmácia (CFF).
O cenário para 2027 merece atenção especial da categoria farmacêutica. A dificuldade de avanço do PL 1.559/2021, que estabelece o piso salarial nacional dos farmacêuticos, ilustra os obstáculos enfrentados pela profissão no Legislativo. Entre os episódios de resistência à proposta está a atuação da deputada Adriana Ventura (Novo-SP), que votou contra o parecer favorável ao piso em julho e novembro de 2022, além de apresentar requerimento para retirada do projeto de pauta. Após mais de cinco anos de tramitação, a proposta avançou na Comissão de Finanças e Tributação em outubro de 2026, mas ainda depende de outras etapas para se tornar lei.
Na área sanitária, propostas de parlamentares da direita, incluindo integrantes do Partido Liberal (PL) e do Novo, também apresentam divergências em relação às posições defendidas por entidades farmacêuticas. Um exemplo é o PL 1.667/2026, apresentado pelo deputado Bibo Nunes (PL-RS), que pretende autorizar a venda de medicamentos isentos de prescrição em supermercados sem a presença obrigatória de farmacêutico.
Outra iniciativa é o PL 1.384/2026, de autoria dos deputados Marcel van Hattem (Novo-RS), Adriana Ventura (Novo-SP) e outros parlamentares. O projeto busca permitir a comercialização desses medicamentos em lojas de conveniência, inclusive em rodovias e áreas rurais, sem a necessidade de enquadramento dos estabelecimentos como farmácias ou drogarias.
O tema já havia provocado controvérsia durante a discussão das farmácias em supermercados, quando emendas que previam assistência farmacêutica remota foram rejeitadas, preservando a obrigatoriedade da presença física do farmacêutico.
Essas iniciativas evidenciam divergências entre propostas de ampliação dos canais de comercialização de medicamentos e a defesa da assistência farmacêutica presencial. Seus autores sustentam que as mudanças podem ampliar o acesso e a concorrência, enquanto entidades profissionais apontam possíveis riscos sanitários. O debate também coloca em evidência a limitada representatividade dos farmacêuticos no Legislativo diante da importância da profissão para a saúde pública.
Com a ampliação das bancadas empresariais e conservadoras, os debates legislativos de 2027 envolverão interesses econômicos, direitos trabalhistas e exigências de segurança sanitária. Nesse contexto, a maior participação de farmacêuticos na vida política, o acompanhamento das posições dos parlamentares e a articulação com conselhos profissionais, sindicatos e demais entidades representativas são elementos relevantes para que as demandas da categoria tenham espaço nas decisões do Congresso Nacional.
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