Pesquisa registrou exaustão, tensão muscular, irritabilidade e uso de medicamentos para ansiedade ou depressão
Redação Provalfar
Uma pesquisa realizada em drogarias privadas de Santo Ângelo, no Rio Grande do Sul, revelou sinais preocupantes sobre a saúde mental de quem trabalha diariamente no atendimento à população. Entre os 38 participantes, 65,8% afirmaram sentir cansaço ou exaustão mesmo depois de descansar.
O estudo, publicado em dezembro de 2025, analisou profissionais da área comercial das drogarias. A amostra incluiu 18 atendentes, sete farmacêuticos, seis operadores de caixa, dois gerentes, dois estagiários e trabalhadores de outras funções.
As mulheres representavam 84,2% dos entrevistados. Quase 40% tinham entre 20 e 24 anos e 92,1% cumpriam jornada diária de aproximadamente 7 horas e 20 minutos.
Além do cansaço persistente, 55,3% dos participantes relataram tensão muscular. Outros 44,7% disseram não se sentir bem em relação ao trabalho e o mesmo percentual informou sentir irritabilidade.
A sensação de incapacidade para enfrentar determinadas demandas da farmácia foi relatada por 39,5%. Outros 39,5% afirmaram sentir “vontade de sumir de tudo”.
Essa última resposta demonstra sofrimento, mas não pode ser apresentada como comprovação de ideação suicida. A pesquisa não realizou uma avaliação clínica específica sobre risco de suicídio.
O levantamento também mostrou que 23,7% possuíam diagnóstico de algum transtorno psicológico. A ansiedade apareceu isoladamente em 13,2% dos participantes, enquanto 10,5% relataram diagnóstico de ansiedade e depressão.
Entre os entrevistados, 34,2% utilizavam medicamentos para ansiedade ou depressão. A pesquisa não informou se todos os tratamentos eram realizados com prescrição e acompanhamento profissional. Dos 13 usuários desses medicamentos, nove afirmaram perceber melhora com o tratamento.
Os autores apontaram que a rotina das drogarias pode reunir fatores capazes de contribuir para o desgaste emocional, como cobrança por metas de vendas, contato intenso com o público, pausas insuficientes, remuneração, sobrecarga e jornadas prolongadas.
No caso dos farmacêuticos, somam-se responsabilidades técnicas, sanitárias e profissionais que exigem atenção contínua. Uma falha durante a dispensação, orientação ou conferência de uma prescrição pode comprometer a segurança do paciente.
Por isso, o sofrimento mental dentro de uma drogaria não deve ser tratado apenas como uma dificuldade particular do trabalhador. Ele também precisa ser observado como um tema relacionado à organização do trabalho e à qualidade da assistência prestada.
O resultado exige uma leitura cuidadosa. O estudo foi exploratório, teve somente 38 participantes e utilizou um questionário elaborado pelos próprios pesquisadores. A baixa adesão também foi reconhecida pelos autores como uma limitação.
Consequentemente, não é possível afirmar que 65,8% dos participantes tinham síndrome de burnout nem generalizar o percentual para todas as drogarias brasileiras.
A Organização Mundial da Saúde define o burnout como um fenômeno ocupacional decorrente do estresse crônico no trabalho que não foi administrado adequadamente. Sua caracterização envolve esgotamento, distanciamento mental em relação ao trabalho e redução da eficácia profissional.
Cansaço, irritabilidade, tensão e alterações emocionais podem funcionar como sinais de alerta, mas a avaliação individual deve ser realizada por profissional habilitado.
A pesquisa torna visível uma realidade ainda pouco estudada nas drogarias brasileiras e reforça a necessidade de agir antes que o sofrimento resulte em adoecimento, afastamentos ou prejuízos à segurança do atendimento.
Capacitar gestores e equipes, reconhecer fatores de risco, melhorar a comunicação, organizar pausas e estabelecer caminhos seguros de acolhimento são medidas que podem contribuir para ambientes de trabalho mais saudáveis. Essas iniciativas, porém, devem estar acompanhadas de mudanças concretas na organização do trabalho.
O tema ganhou ainda mais relevância com a nova redação da NR-1, em vigor desde 26 de maio de 2026. A norma passou a incluir expressamente os fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais.
Nas farmácias, esse processo deve considerar aspectos ligados à organização e à gestão do trabalho, como sobrecarga, cobrança excessiva por metas, jornadas prolongadas, pausas insuficientes, dimensionamento das equipes e conflitos nas relações profissionais.
A capacitação pode ajudar empresas, gestores e trabalhadores a reconhecer esses fatores, estruturar medidas preventivas e compreender as responsabilidades previstas na norma. Ela não substitui a adoção de providências concretas para eliminar, reduzir ou controlar os riscos identificados.
A SeIntegra Group atende empresas e instituições de diferentes setores em todo o Brasil com as capacitações NR-01 na Prática, Saúde Mental e Gestão de Riscos Psicossociais e Diversidade, Inclusão e Estratégia ESG: Liderança e Cultura Sustentável.
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Dr. Caio Sentegra
Farmacêutico e bioquímico
Fundador e CEO da SeIntegra Group
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