VALORIZAÇÃO FARMACÊUTICA

Farmácia pode enfrentar crise de retenção com mudança no perfil das novas gerações

Millennials reavaliam prioridades profissionais enquanto a Geração Z chega ao mercado; expansão da formação contrasta com falta de dados sobre quantos farmacêuticos querem permanecer na carreira

Redação Provalfar

Atualizada em
17
/
09
/
2026
11:42

Durante décadas, concluir uma graduação, conseguir emprego e permanecer por muitos anos na mesma profissão foi considerado um caminho natural de carreira. Essa lógica começa a mudar. Millennials que entraram na Farmácia há dez, 15 ou até 20 anos também mudaram ao longo desse período. Prioridades pessoais e profissionais foram sendo reorganizadas, e questões como remuneração, jornada, reconhecimento, autonomia, perspectivas de crescimento e qualidade de vida passaram a pesar mais na decisão de permanecer ou não na carreira. Depois de anos esperando maior valorização profissional, parte dessa geração pode começar a se perguntar se ainda vale a pena continuar.

Ao mesmo tempo, a Geração Z ingressa no mercado com expectativas diferentes e, em muitos casos, ainda sem conhecer plenamente os pontos positivos, as limitações, as jornadas, as possibilidades de remuneração e os problemas históricos enfrentados pela profissão. Para a Farmácia, essa mudança pode representar um problema ainda pouco discutido no Brasil, não apenas quantos novos profissionais estão sendo formados, mas quantos dos que já se formaram desejam continuar exercendo a profissão.

Farmácia forma muito, mas sabe pouco sobre quem permanece

Esse debate ganha importância diante do tamanho da formação farmacêutica brasileira. Dados do Mapa do Ensino Superior 2026, elaborado pelo Instituto Semesp a partir do Censo da Educação Superior do Inep, mostram que, somente em 2024, havia 104.558 matrículas em cursos de Farmácia na modalidade EaD da rede privada, colocando o curso entre os dez maiores do ensino a distância no país naquele momento.

O dado dimensiona a capacidade brasileira de colocar novos graduados no mercado. Mas existe uma pergunta para a qual não encontramos uma resposta nacional atualizada equivalente: quantos farmacêuticos deixam efetivamente a profissão depois de formados?

Nos Estados Unidos, intenção de saída já é medida

Nos Estados Unidos, essa preocupação já aparece nas pesquisas sobre a força de trabalho farmacêutica. O National Pharmacist Workforce Study de 2024 analisou não apenas quantos farmacêuticos estão trabalhando, mas também satisfação, carga de trabalho, mudanças de emprego e intenção de permanecer.

Entre os farmacêuticos em exercício que responderam ao levantamento, 25,5% afirmaram ser provável ou muito provável deixar o emprego atual no período de um ano, enquanto 36,1% disseram que provavelmente procurariam outro trabalho. Ao mesmo tempo, 91,3% indicaram que provavelmente continuariam trabalhando como farmacêuticos, mostrando que deixar determinado emprego não significa necessariamente abandonar a profissão.

Esse tipo de dado permite diferenciar fenômenos distintos, troca de empregador, mudança de área, redução de jornada, saída temporária e abandono efetivo da profissão. No Brasil, essa fotografia ainda é muito mais difícil de construir.

O ambiente de trabalho também entra nessa conta

A permanência na carreira não depende apenas do número de vagas disponíveis. Condições de trabalho, possibilidade de crescimento, autonomia, remuneração, carga de trabalho e equilíbrio entre vida pessoal e profissional também influenciam a decisão de continuar.

No levantamento norte-americano, 73% dos farmacêuticos que trabalhavam em período integral classificaram a carga de trabalho como alta ou excessivamente alta. Nas farmácias de rede, esse percentual chegou a 91%.

Estudos realizados em outros países apontam preocupação semelhante. Pesquisa com farmacêuticos em início de carreira na Nova Zelândia identificou que 44% consideravam deixar a profissão nos cinco anos seguintes, enquanto progressão profissional, ambiente de trabalho e remuneração apareciam entre fatores relevantes para satisfação na carreira.

Duas gerações podem estar vivendo problemas diferentes

A situação dos millennials merece atenção especial porque essa geração já não é formada majoritariamente por recém-chegados ao mercado. Muitos farmacêuticos millennials estão hoje na faixa intermediária da carreira. Alguns já acumulam dez, 15 ou até 20 anos de profissão. Isso significa que tiveram tempo suficiente para comparar as expectativas que possuíam na graduação com aquilo que efetivamente encontraram no mercado. É nesse grupo que pode surgir outra pergunta, depois de anos esperando maior valorização, ainda vale a pena permanecer?

Pela classificação geracional do Pew Research Center, os millennials são os nascidos entre 1981 e 1996, enquanto a Geração Z compreende os nascidos a partir de 1997. Em 2026, os millennials têm aproximadamente entre 30 e 45 anos, enquanto os integrantes adultos mais velhos da Geração Z chegam aos 29 anos. As duas gerações, portanto, já convivem no mercado farmacêutico.

Isso também mostra que não haverá uma substituição imediata. Os millennials ainda permanecerão por muitos anos na Farmácia, mas a participação relativa da Geração Z tende a crescer progressivamente e a mudança deverá se tornar muito mais perceptível ao longo das décadas de 2030 e 2040.

A Geração Z enfrenta problema diferente. Ela está ingressando na profissão em um momento de grande oferta de formação e profunda transformação tecnológica, mas pode escolher o curso sem conhecer suficientemente as diferenças entre os campos farmacêuticos, as possibilidades de remuneração, as jornadas existentes ou os obstáculos de cada setor. Assim, duas pressões podem ocorrer simultaneamente, profissionais experientes avaliando saídas e novos profissionais entrando sem conhecimento suficiente da realidade que encontrarão.

Há ainda um aspecto que ultrapassa emprego e remuneração. Existe uma passagem de bastão profissional em curso.

Os millennials também carregam uma característica importante nessa transição. Foi uma geração fortemente marcada por lutas, primeiro ainda na fase acadêmica e depois no exercício da profissão. Os integrantes mais velhos da Geração Z também vivenciaram parte desse processo, mas já chegaram à formação e ao mercado em outro momento da trajetória profissional. Muitos farmacêuticos participaram, acompanharam ou foram diretamente impactados por mobilizações em defesa da valorização profissional, da assistência farmacêutica, da presença obrigatória do farmacêutico, de melhores condições de trabalho, salário, jornada e reconhecimento.

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Foto: Reprodução/UOL | Farmacêuticos ocupam a Esplanada dos Ministérios, em 14 de maio de 2014, durante a mobilização que antecedeu a aprovação da Lei 13.021/2014


A mobilização de 14 de maio de 2014, quando centenas de farmacêuticos ocuparam a Esplanada dos Ministérios, em Brasília, é uma imagem simbólica desse período. Muitos daqueles jovens de jaleco que foram às ruas ainda estavam no início da vida profissional ou haviam acabado de deixar a universidade. Hoje, mais de uma década depois, fazem parte justamente da geração intermediária da Farmácia brasileira. Naquele momento, a categoria pressionava pela aprovação do texto ligado ao PL 4.385/1994, processo legislativo que posteriormente resultaria na Lei 13.021/2014.

Por isso, quando se fala em passagem de bastão, não se trata apenas de transmitir conhecimento técnico ou experiência de mercado. Trata-se também de transmitir memória profissional, consciência coletiva e a compreensão de que muitas das conquistas atuais não surgiram espontaneamente, mas foram resultado de mobilização.

Isso não significa que as gerações anteriores não tenham participado das conquistas da profissão. Ao contrário, muitas delas foram responsáveis pela construção das bases legais, técnicas e institucionais da Farmácia atual. O que diferencia os millennials é que eles representam hoje uma geração intermediária, ainda ativa e numerosa, que recebeu parte dessas lutas e continua carregando várias delas.

A Geração Z está construindo agora sua relação com sindicatos, conselhos, associações, entidades profissionais e com a própria ideia de organização coletiva da categoria. Ela não acompanhou necessariamente todo o percurso que levou às reivindicações atuais.

Não se trata de afirmar que os novos farmacêuticos tenham menos compromisso com a profissão. O problema é outro, uma geração pode receber os problemas acumulados pela anterior sem receber, na mesma intensidade, a memória das lutas que explicam por que esses problemas existem.

Se uma parcela significativa dos millennials deixar a profissão antes que essa memória seja transmitida, a Farmácia poderá perder não apenas profissionais experientes, mas também uma geração que aprendeu, ainda na formação acadêmica, que determinados avanços dependem da organização e da participação da própria categoria.

E os problemas ainda não terminaram.

A geração que lutou durante anos por valorização, melhores salários, condições adequadas de trabalho e reconhecimento profissional ainda não conseguiu resolver todas essas questões. Ao mesmo tempo, já começa a dividir espaço com uma geração que terá de decidir quais dessas pautas continuará carregando.

Os millennials ainda não passaram completamente o bastão.

Formar mais profissionais não resolve um problema de retenção

Essa discussão muda a maneira de analisar o futuro da Farmácia.

Se o país forma dezenas de milhares de profissionais, mas parte deles abandona a carreira, migra para outras atividades ou permanece apenas por falta de alternativa imediata, aumentar continuamente o número de graduados não resolve necessariamente o problema.

Quantidade de profissionais registrados também não revela, sozinha, quantos estão efetivamente exercendo atividades farmacêuticas, quantos deixaram a profissão, quantos pretendem sair e quantos permanecem insatisfeitos procurando outra área.

Um mercado pode ter grande número absoluto de profissionais e, ao mesmo tempo, enfrentar dificuldades de retenção em determinados setores, regiões ou tipos de estabelecimento.

Também é possível que a expansão de vagas de graduação produza continuamente novos profissionais enquanto outros, mais experientes, saem silenciosamente da atividade.

Esse movimento teria consequências importantes. A profissão poderia continuar aumentando numericamente sem necessariamente acumular experiência profissional na mesma proporção.

Além disso, substituir continuamente trabalhadores experientes por novos graduados não resolve problemas estruturais de remuneração, jornada, reconhecimento, autonomia ou condições de trabalho.

Por isso, atribuir eventual evasão apenas à “falta de interesse” do profissional pode esconder uma questão estrutural.

Brasil precisa saber quem pretende sair antes de discutir apenas quem está entrando

O Brasil acompanha com frequência o número de cursos, matrículas, formandos e profissionais registrados. Mas são necessários também indicadores capazes de acompanhar a trajetória desses profissionais depois da graduação.

Uma pesquisa nacional periódica poderia mostrar quantos farmacêuticos pretendem permanecer na profissão, quantos pensam em mudar de área, quais setores apresentam maior intenção de saída e quais fatores estão associados a essas decisões.

Também seria necessário dimensionar quantos graduados em Farmácia atualmente trabalham fora da área e compreender por que fizeram essa escolha.

A mudança geracional torna essa discussão ainda mais urgente. Nas próximas décadas, millennials, Geração Z e gerações posteriores dividirão uma profissão que ainda tenta solucionar problemas históricos de reconhecimento, remuneração e condições de exercício.

Se parte da geração intermediária sair sem que essas questões tenham avançado e sem que exista uma transmissão efetiva da experiência acumulada para os profissionais mais jovens, o futuro da Farmácia se torna mais difícil de prever.

A próxima grande discussão sobre a formação farmacêutica talvez não seja apenas quantos profissionais o Brasil deve formar, mas como fazer com que quem entrou queira permanecer.

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