ASSISTÊNCIA FARMACÊUTICA

Farmácias ampliam serviços clínicos, mas pesquisa revela que idosos ainda não encontram orientação farmacêutica na prática

Enquanto redes ampliam salas clínicas e atendimentos, pesquisa mostra que 52,8% dos idosos não tiram dúvidas sobre seus tratamentos com farmacêuticos

Redação Provalfar

Atualizada em
08
/
06
/
2026
14:04

As grandes redes de farmácias brasileiras têm celebrado a expansão dos serviços clínicos e assistenciais oferecidos à população. Dados divulgados pela Associação Brasileira de Farmácias e Drogarias (Abrafarma) mostram que o setor realizou aproximadamente 10 milhões de serviços em 2025, alcançando 6,8 milhões de atendimentos em cerca de 1.500 municípios. Apenas nos três primeiros meses de 2026, foram registrados 3,6 milhões de atendimentos, média de aproximadamente 40 mil procedimentos por dia.

Segundo a entidade, as redes associadas já contam com 9.248 salas clínicas em funcionamento e vêm ampliando serviços como vacinação, testes rápidos para dengue, Covid-19 e doenças respiratórias, além de atividades de acompanhamento farmacoterapêutico. A vacinação, por exemplo, registrou crescimento de 56% no número de doses aplicadas. A Abrafarma afirma que o modelo acompanha experiências adotadas em países como Estados Unidos, Canadá e Inglaterra, onde as farmácias exercem papel cada vez mais relevante no acompanhamento de pacientes crônicos e na promoção da saúde.

Os números demonstram um setor em expansão. No entanto, um levantamento divulgado pela Associação Brasileira de Distribuição e Logística de Produtos Farmacêuticos (Abradilan), com base na Pesquisa Comportamento do Consumidor em Farmácias 2026, realizada pelo Instituto Febrafar de Pesquisa e Educação Corporativa (IFEPEC), revela um cenário que contrasta com o crescimento da estrutura clínica anunciada pelas grandes redes. A pesquisa aponta que 52,8% dos idosos afirmam nunca tirar dúvidas sobre seus tratamentos com o farmacêutico.

O dado chama atenção porque o mesmo estudo mostra que justamente essa população apresenta elevada demanda por acompanhamento profissional. Entre os entrevistados com mais de 60 anos, 72% utilizam mais de três medicamentos de uso contínuo por dia. Além disso, 57,1% relatam dificuldades para ler bulas e embalagens e 34,1% afirmam ter dificuldades para lembrar corretamente os horários de administração dos medicamentos.

Na prática, os números indicam que milhões de brasileiros convivem diariamente com obstáculos que poderiam ser minimizados por meio da orientação farmacêutica. Ainda assim, mais da metade desse público não busca o profissional para esclarecer dúvidas relacionadas ao tratamento. O contraste levanta questionamentos sobre a efetiva integração dos serviços farmacêuticos à rotina dos pacientes, especialmente em um contexto de envelhecimento populacional e aumento da prevalência de doenças crônicas.

Outro dado que reforça essa percepção está relacionado à experiência dos idosos dentro das próprias farmácias. Segundo o levantamento do IFEPEC, apenas 22,7% classificam o atendimento prioritário como bom ou excelente. Para 50,5%, o serviço é apenas razoável, enquanto 26,8% o consideram ruim. Na prática, mais de três quartos dos entrevistados entendem que o atendimento destinado a esse público ainda pode melhorar.

Paradoxalmente, a pesquisa também identificou forte interesse pelos serviços farmacêuticos. Entre os idosos entrevistados, 65,6% afirmaram que utilizariam ferramentas como organizadores de medicamentos, lembretes de horários e programas de acompanhamento terapêutico. Quase metade deles declarou que aderiria a esses serviços caso fossem oferecidos gratuitamente pelas farmácias.

Para farmacêuticos, os resultados sugerem que a principal barreira para expansão da assistência farmacêutica não está necessariamente na ausência de demanda por parte da população. Ao contrário, os dados indicam que existe necessidade crescente de orientação, acompanhamento e suporte ao uso racional de medicamentos. O desafio parece estar na capacidade das farmácias de transformar a estrutura existente em acesso efetivo aos serviços clínicos.

A discussão também reacende debates antigos da categoria sobre as condições de trabalho dos farmacêuticos no varejo. Embora a Lei nº 13.021/2014 reconheça a farmácia como estabelecimento de saúde e atribua ao farmacêutico papel central na assistência ao paciente, profissionais relatam que parte significativa da jornada ainda é consumida por atividades administrativas, operacionais, controle de estoque, conferências, gestão de indicadores, demandas burocráticas e outras atribuições que frequentemente reduzem o tempo disponível para o exercício das atividades clínicas.

Entidades farmacêuticas argumentam que o crescimento da infraestrutura assistencial não necessariamente significa ampliação efetiva da assistência farmacêutica. Na avaliação de representantes da categoria, a persistência de situações de desvio e acúmulo de função, associada à insuficiência de investimentos em equipes de apoio e à sobrecarga operacional dos estabelecimentos, dificulta que o farmacêutico exerça plenamente as atribuições assistenciais previstas na legislação.

Nesse contexto, especialistas avaliam que o crescimento do número de salas clínicas e de procedimentos realizados representa um avanço importante, mas insuficiente por si só. A consolidação da assistência farmacêutica depende não apenas da criação de espaços físicos ou da oferta formal de serviços, mas também de investimentos que garantam ao farmacêutico tempo, autonomia técnica e condições adequadas para desenvolver atividades de orientação, acompanhamento terapêutico e cuidado ao paciente.

Os dois levantamentos apontam para uma mesma conclusão: existe demanda, existe estrutura e existe necessidade assistencial. O desafio do setor passa a ser transformar esses elementos em cuidado efetivo. Caso contrário, o país poderá continuar registrando milhões de atendimentos, milhares de salas clínicas e crescimento dos serviços farmacêuticos, enquanto uma parcela significativa dos pacientes que mais necessita de orientação seguirá enfrentando dificuldades relacionadas ao uso correto dos medicamentos sem acessar plenamente o cuidado farmacêutico previsto na Lei nº 13.021/2014.

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