Programa amplia a autonomia clínica do farmacêutico e remunera as farmácias pelo atendimento, mas profissionais britânicos relatam sobrecarga, metas e falta de reconhecimento proporcional
Redação Provalfar
O Pharmacy First foi colocado no centro da agenda do Abrafarma Future Trends 2026 como uma referência para transformar a farmácia em plataforma de saúde no Brasil. O modelo, porém, precisa ser examinado por inteiro. Ele amplia de forma concreta a autonomia do farmacêutico, facilita o acesso do paciente e transfere atendimentos simples para a farmácia. Ao mesmo tempo, a experiência britânica mostra riscos de sobrecarga, trabalho não remunerado, pressão por metas, falhas de integração e concentração da receita no estabelecimento, não necessariamente no profissional que executa o serviço.
Também é preciso corrigir uma confusão recorrente. O Pharmacy First não é um modelo criado pela Boots. É uma política pública do NHS England, o sistema público de saúde inglês, lançada em 31 de janeiro de 2024. O programa nacional analisado nesta matéria é o da Inglaterra, já que as demais nações do Reino Unido possuem arranjos próprios. A Boots é uma das grandes redes contratadas para executá-lo e já informou ter realizado mais de 1 milhão de consultas.
No Pharmacy First, a consulta é conduzida pelo farmacêutico. Ele avalia sintomas, histórico, alergias, medicamentos em uso e sinais de alarme. Pode orientar autocuidado, indicar tratamento de venda livre, fornecer medicamentos sujeitos a prescrição dentro dos protocolos nacionais ou encaminhar o paciente para outro nível de atenção.
Os sete percursos clínicos nacionais abrangem sinusite, dor de garganta, otite média aguda, impetigo, picadas de insetos infectadas, herpes-zóster e infecção urinária não complicada em mulheres de 16 a 64 anos. Há limites de idade e critérios específicos para cada condição. O serviço também inclui atendimentos de doenças menores e fornecimento urgente de medicamentos de uso contínuo encaminhados pelo NHS.
Até agosto de 2026, o farmacêutico fornece medicamentos de prescrição, inclusive antibióticos e antivirais, por meio de Patient Group Directions, protocolos nacionais que definem exatamente quem pode ser tratado, qual medicamento pode ser fornecido e quando o caso deve ser encaminhado. Portanto, ainda não se trata de liberdade irrestrita para diagnosticar e prescrever qualquer medicamento. A partir do outono britânico de 2026, o governo prevê incorporar a prescrição independente ao Pharmacy First e criar até cinco novos percursos clínicos.
Alguns atendimentos podem ser remotos, com vídeo quando o protocolo exige inspeção visual. A otite precisa de exame presencial com otoscópio. O programa não funciona como uma consulta multiprofissional simultânea dentro da loja. Médicos, farmacêuticos e especialistas participaram da elaboração dos protocolos, e o farmacêutico encaminha casos com sinais de risco para a rede do NHS. O protagonismo do atendimento, entretanto, é farmacêutico.
O farmacêutico brasileiro já possui atribuições clínicas relevantes. A Lei 13.021 de 2014 reconhece a farmácia como unidade de assistência à saúde, permite acompanhamento farmacoterapêutico e estabelece que o proprietário não pode desconsiderar a orientação técnica do farmacêutico. O profissional também pode realizar consultas farmacêuticas, acompanhar tratamentos, indicar medicamentos isentos de prescrição, administrar medicamentos e vacinas conforme as normas aplicáveis, fazer determinados exames em farmácias e encaminhar o paciente. A Anvisa ressalta, no entanto, que o resultado de um exame feito na farmácia não equivale a diagnóstico.
A diferença britânica é institucional. Na Inglaterra existe um contrato público nacional que autoriza o farmacêutico a concluir episódios de cuidado para condições definidas e fornecer medicamentos sujeitos a prescrição com financiamento, protocolo, registro e fluxo de encaminhamento. O Brasil não possui um programa nacional equivalente integrado ao SUS.
No Brasil, a prescrição farmacêutica ainda passa por um processo de consolidação regulatória e judicial. A Resolução CFF 5/2025, que regulamentou a prescrição de medicamentos sujeitos a receita por farmacêuticos com Registro de Qualificação de Especialista em Farmácia Clínica, teve seus efeitos suspensos pela Justiça Federal. O CFF recorreu e defende o respaldo técnico e jurídico da atuação. A discussão não afasta atribuições exercidas em protocolos e programas específicos, mas demonstra que o Brasil ainda não possui uma política pública nacional equivalente ao Pharmacy First, com protocolos assistenciais, financiamento e integração à rede de saúde.
O Pharmacy First é financiado pelo Estado britânico por meio do NHS. Em agosto de 2026, a farmácia recebe £17 por consulta elegível de percurso clínico ou doença menor e £15 pelo fornecimento urgente de medicamento. Considerando a libra cotada em aproximadamente R$ 7 em 13 de agosto, isso representa cerca de R$ 119 por consulta e R$ 105 pelo fornecimento urgente. Estabelecimentos que realizam de 20 a 29 consultas clínicas elegíveis no mês recebem um adicional de £500, aproximadamente R$ 3,5 mil. A partir de 30 atendimentos, o valor chega a £1.000, cerca de R$ 7 mil mensais. Os medicamentos fornecidos também são reembolsados pelo sistema público.
O ponto trabalhista é essencial: esses pagamentos são feitos ao proprietário ou contratante da farmácia, e não diretamente ao farmacêutico empregado que realizou os atendimentos. Não existe uma regra nacional que obrigue o estabelecimento a repassar parte desses valores ao profissional por meio de adicional, comissão clínica ou aumento salarial. Assim, a receita da farmácia pode crescer com o novo serviço sem que isso resulte automaticamente em valorização financeira para quem assume o atendimento e a responsabilidade clínica.
Na Boots, farmacêuticos receberam em 2024 um bônus único de £750 proporcional à jornada, equivalente a aproximadamente R$ 5,2 mil, após negociação do sindicato PDA. O pagamento reconheceu a participação dos profissionais em diferentes serviços, entre eles o Pharmacy First, mas não se tornou uma remuneração permanente por consulta. No mesmo período, a Boots informou que suas vendas de farmácia cresceram 10% em um trimestre, impulsionadas principalmente por serviços do NHS e privados, com mais de 150 mil consultas do Pharmacy First. Os números mostram a relevância econômica dos serviços clínicos para a rede e, ao mesmo tempo, a ausência de garantia de participação proporcional do farmacêutico nessa receita.
Uma pesquisa do sindicato e associação de defesa profissional PDA, respondida por 924 farmacêuticos em janeiro de 2025, mostrou que 93% não viram aumento de pessoal após a implantação. Para 75%, as equipes não eram suficientes para prestar com segurança o Pharmacy First e os demais serviços contratados pelo NHS. Outros 65% não receberam tempo protegido nem pagamento adicional para realizar o treinamento essencial. Apesar disso, 69% apoiavam a continuidade do programa. O dado revela que os profissionais não rejeitam a autonomia, mas questionam as condições de trabalho.
Há ainda trabalho clínico que não gera pagamento. A consulta só é remunerada em determinadas situações quando o paciente ultrapassa o chamado gateway, o conjunto de critérios do protocolo. Em pesquisa com 266 proprietários de farmácias independentes, representando cerca de 2 mil unidades, 59,5% disseram que menos da metade das avaliações iniciais atingia o ponto de pagamento. A maioria gastava pelo menos 20 minutos por consulta, e 71% afirmaram que o Pharmacy First reduziu a capacidade de executar outros serviços. Foram relatados atrasos na dispensação, acúmulo na conferência de receitas e interrupção de atividades.
Além disso, o NHS limita a quantidade mensal de consultas clínicas remuneradas. Em agosto de 2026, os tetos variavam de 32 a 162 atendimentos, conforme a faixa de cada estabelecimento. A farmácia pode atender acima do teto, mas não recebe a taxa de £17. Se faltar o medicamento e o paciente precisar ser enviado para outra farmácia, o primeiro estabelecimento também pode não receber. O desenho cria pressão para atingir faixas mínimas e, ao mesmo tempo, deixa parte do trabalho sem remuneração.
A pressão por produtividade já apareceu dentro da Boots. Representantes de empregados relataram preocupação com relatórios de desempenho e impacto sobre a saúde mental. Em 2024, mais de um terço dos participantes de uma pesquisa do PDA disse ter sido solicitado a cumprir metas diárias ou semanais, enquanto 94% afirmaram que não houve contratação adicional. Um diretor da Boots orientou que qualquer pressão para atingir metas fosse denunciada. A manifestação da empresa é importante, mas também confirma que o risco foi percebido no ambiente de trabalho.
O problema não se limita ao Pharmacy First, mas o programa se soma a um sistema já pressionado. Um levantamento publicado em 2026 apontou que as consultas em farmácias inglesas passaram de cerca de 7,5 milhões em 2021 para mais de 25 milhões em 2025, enquanto o número médio de trabalhadores em tempo integral por farmácia permaneceu em 6,6 entre 2021 e 2024. Há menos estabelecimentos, horários mais curtos e mais prescrições e serviços concentrados no período de funcionamento.
O farmacêutico precisa reconhecer sinais de sepse, meningite, agravamento de infecção e outras condições que exigem encaminhamento. Também deve verificar contraindicações, registrar o atendimento, comunicar o médico de família e responder profissionalmente por sua decisão. Quanto maior a autonomia, maior a necessidade de seguro, educação continuada, tempo clínico e proteção contra interferência comercial.
A integração digital ainda não está completa. Em fevereiro de 2026, uma análise de mil farmácias indicou que somente 75% das tentativas de atualização eletrônica do prontuário foram bem-sucedidas. Quando o sistema não funciona, a equipe precisa enviar a informação por e-mail para inclusão manual, consumindo tempo e criando risco de fragmentação do histórico clínico. Uma em cada quatro clínicas médicas ainda não havia ativado a funcionalidade necessária.
O uso de antibióticos é outro ponto sensível. Um estudo comparou os protocolos de dor de garganta da Inglaterra e do País de Gales. Na Inglaterra, 72,7% dos pacientes atendidos receberam antibiótico, ante 29,9% no modelo galês, que utiliza teste para estreptococo. A diferença não prova falha do farmacêutico. Mostra que o desenho do protocolo influencia fortemente a decisão e que o profissional pode acabar responsabilizado por resultados produzidos pelo próprio sistema.
A avaliação independente mais completa do Pharmacy First, financiada pelo NIHR, está prevista para terminar apenas em janeiro de 2027. Portanto, ainda não existe resultado final sobre segurança, custo-efetividade, impacto em consultas médicas, procura por urgência e resistência antimicrobiana. Apresentar o programa apenas como sucesso consolidado seria prematuro.
Não há prova pública de uma intenção secreta, de um acordo fechado com o SUS ou de compromisso do Ministério da Saúde em financiar um Pharmacy First brasileiro. A presença do ministro Alexandre Padilha na abertura do Future Trends também não equivale a uma política pública aprovada. O interesse econômico e regulatório da Abrafarma, entretanto, está exposto nos próprios documentos e discursos da entidade.
Na agenda oficial do Future Trends, a sessão sobre o modelo britânico foi seguida pelo painel “Farmácia como plataforma de saúde: como escalar no Brasil?”, com dirigentes da Pague Menos, RD Saúde e Panvel. O próprio site do evento afirma que seu objetivo é antecipar oportunidades do varejo, fechar negócios e gerar parcerias “lucrativas”. Também declara que a Abrafarma influencia políticas públicas e lidera a expansão de serviços clínicos.
Há um antecedente que merece atenção. Em 2019, o portal da Abrafarma publicou a apresentação de um consultor segundo a qual uma consulta de 15 minutos poderia gerar de quatro a cinco vezes mais rentabilidade “sem necessidade de funcionários adicionais”. O texto não é uma política trabalhista atual da entidade e reproduzia a opinião de um consultor. Mesmo assim, o contraste é expressivo: no Reino Unido, 93% dos farmacêuticos pesquisados disseram que não houve reforço de equipe e 75% consideraram o quadro insuficiente para atendimento seguro.
O CEO da Abrafarma, Sérgio Mena Barreto, também defende publicamente a farmácia como hub de saúde, a integração de dados, a telemedicina e a evolução para um “terceiro pagador”, como empresas, operadoras ou poder público. Em entrevista publicada no portal da própria Abrafarma, o executivo relatou um piloto no qual, a cada cem atendimentos, o farmacêutico teria resolvido 66, acionado um médico em 20 e encaminhado 14 ao pronto atendimento. Não foi localizada uma avaliação pública independente com metodologia que permita validar esses números.
A proposta descrita pelo executivo não é uma cópia do Pharmacy First. É um modelo híbrido brasileiro. O farmacêutico faria triagem, anamnese, medidas e imagens do ouvido ou da garganta; quando necessário, acionaria um médico por telemedicina, e o paciente poderia sair da mesma farmácia com a prescrição e o medicamento dispensado. Isso pode ampliar o acesso, mas também cria um risco: em vez de receber a mesma autonomia clínica do farmacêutico britânico, o profissional brasileiro pode ser transformado em apoio operacional da telemedicina, acumulando coleta de dados, exame, orientação e acompanhamento, enquanto a receita do serviço e da venda fica com a rede.
Também existe interesse em tráfego, fidelização, dados, recorrência, venda de serviços e maior valor por cliente. Isso não torna o projeto ilegítimo. Torna indispensável separar interesse sanitário de interesse comercial, definir quem é remunerado e impedir que metas de venda influenciem decisões clínicas.
Sim, poderia funcionar, mas não como simples serviço adicional criado pelo varejo. O Brasil tem capilaridade, farmacêuticos qualificados, salas clínicas e uma lei que reconhece a farmácia como estabelecimento de saúde. Um programa nacional poderia ampliar o acesso e aproveitar melhor uma categoria subutilizada. Para isso, seria necessário construir uma política pública com pelo menos estas garantias:
Antes de reivindicar novas atribuições em nome da profissão, o varejo deveria demonstrar como valoriza as atribuições que o farmacêutico já exerce. A própria Lei 13.021 determina que o proprietário forneça condições adequadas ao desenvolvimento do trabalho profissional. Valorização não é apenas usar a imagem do farmacêutico como porta de entrada para a saúde. É garantir salário compatível, equipe, autonomia técnica, treinamento, carreira e proteção contra metas comerciais.
O Pharmacy First pode fortalecer o farmacêutico quando autonomia, financiamento e infraestrutura caminham juntos. Pode prejudicá-lo quando a responsabilidade clínica é transferida ao profissional, mas o pagamento, os dados e a fidelização ficam concentrados na rede. Importar apenas a carga de trabalho britânica, sem importar o financiamento público, a integração assistencial e as garantias profissionais, não seria um Pharmacy First brasileiro. Seria expansão comercial apoiada no trabalho farmacêutico.
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