Pesquisa também mostra que 69% temem medicamentos falsificados na internet e 71% rejeitam tratá-los remédios como mercadorias comuns, em meio à regulamentação dos marketplaces pela Anvisa
Redação Provalfar
Em meio ao avanço da venda de medicamentos pela internet e à discussão sobre a entrada de grandes marketplaces nesse mercado, uma pesquisa nacional coloca o farmacêutico no centro de uma questão que vai além da conveniência digital. Para 78% dos consumidores entrevistados, a presença de um farmacêutico aumenta a confiança na compra de medicamentos.
A pesquisa foi realizada pelo Instituto QualiBest, por encomenda da Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias, Abrafarma. Foram ouvidas 2.024 pessoas de todas as regiões do país, responsáveis pela compra de medicamentos em suas residências e que têm o hábito de realizar compras online pelo menos uma vez a cada três meses. As entrevistas ocorreram entre 13 e 17 de julho.
Os resultados mostram que a preocupação dos consumidores não está apenas na forma de entrega. 69% afirmaram temer a compra de medicamentos falsificados pela internet, 59% demonstraram receio de receber produtos vencidos ou armazenados inadequadamente e 54% citaram o risco de adquirir medicamentos sem registro na Anvisa.
Outro resultado chama atenção diante da expansão do comércio eletrônico na área da saúde. Para 71% dos entrevistados, medicamentos não devem ser tratados como mercadorias comuns nas plataformas digitais. Outros 82% defendem que a comercialização digital esteja obrigatoriamente vinculada a uma farmácia ou drogaria autorizada.
A percepção dos consumidores coincide com um dos pontos destacados pela própria Anvisa ao abrir, em 19 de agosto, o processo administrativo que regulamentará a participação de marketplaces na logística e entrega de medicamentos.
Ao anunciar a medida, a Agência ressaltou que medicamento não é um bem de consumo comum e reafirmou que a farmácia desempenha papel na assistência farmacêutica e no uso seguro e racional dos medicamentos.
A discussão ganha relevância porque a digitalização pode alterar profundamente a relação entre consumidor, estabelecimento farmacêutico e profissional. A pesquisa indica, entretanto, que a conveniência tecnológica não eliminou a percepção da importância da assistência profissional. Pelo contrário, o farmacêutico aparece como um dos fatores capazes de aumentar a confiança do consumidor nesse novo ambiente de compra.
A Lei nº 15.357/2026 alterou a Lei nº 5.991/1973 e passou a permitir que farmácias e drogarias licenciadas e registradas contratem canais digitais e plataformas de comércio eletrônico para fins de logística e entrega ao consumidor, desde que seja cumprida integralmente a regulamentação sanitária.
Isso significa que a legislação não transformou marketplaces em farmácias e tampouco estabeleceu uma liberação indiscriminada para a comercialização de medicamentos por qualquer vendedor.
A própria Anvisa esclareceu, após revogar medidas que atingiam plataformas como iFood, Rappi, Mercado Livre, Americanas, Submarino e Shopee, que essas decisões não representam autorização automática para comercializar produtos farmacêuticos. As condições específicas ainda serão definidas pela regulamentação sanitária em elaboração.
O Conselho Federal de Farmácia também afirmou à Agência Brasil que a entrada das plataformas não significa venda aleatória de medicamentos pela internet. Segundo o CFF, o modelo a ser regulamentado deverá permitir a utilização das plataformas pelas farmácias em suas operações, preservando as responsabilidades sanitárias e profissionais envolvidas.
A expansão dos canais digitais também não revogou o papel definido para o farmacêutico pela legislação brasileira.
A Lei nº 13.021/2014 estabelece a farmácia como unidade de prestação de serviços destinada à assistência farmacêutica, assistência à saúde e orientação sanitária. A mesma norma determina responsabilidade e assistência técnica de farmacêutico habilitado e exige sua presença durante todo o horário de funcionamento das farmácias.
A própria Lei nº 15.357/2026, ao autorizar farmácias e drogarias dentro de supermercados, reforçou essa lógica. A norma determina expressamente a presença de farmacêuticos legalmente habilitados durante todo o horário de funcionamento dessas unidades e mantém exigências relacionadas à dispensação, assistência e cuidados farmacêuticos.
Os resultados da pesquisa ajudam a deslocar o debate. A questão sobre medicamentos em aplicativos e marketplaces não se limita a saber se o consumidor conseguirá receber uma caixa de medicamentos mais rapidamente em casa. Também envolve identificar quem responde pela dispensação, pela procedência do produto, pelo armazenamento, pela rastreabilidade e pela orientação necessária ao paciente.
Esse ponto aparece claramente na percepção dos entrevistados. Além dos 78% que dizem confiar mais quando existe a presença do farmacêutico, 85% atribuem às plataformas responsabilidade pela oferta de medicamentos falsificados, sem registro ou de procedência desconhecida.
Há ainda uma dificuldade prática. Segundo a pesquisa, 56% dos consumidores teriam dificuldade para saber a quem recorrer caso enfrentassem algum problema relacionado a um medicamento adquirido por meio de uma plataforma digital.
A regulamentação que será construída pela Anvisa terá, portanto, o desafio de compatibilizar inovação e conveniência com um sistema no qual medicamentos continuam submetidos a controles sanitários específicos.
Para o farmacêutico, os números trazem outro sinal. Em um momento em que aplicativos, automação e marketplaces alteram a forma como medicamentos chegam até a população, 78% dos consumidores consultados ainda associam a presença desse profissional a maior confiança na compra.
A tecnologia pode mudar o balcão. Os dados indicam que isso não elimina a importância do farmacêutico na assistência, na segurança e na relação de confiança entre o paciente e o medicamento.
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