Política Farmacêutica

Projeto da direita chilena quer permitir que outros profissionais da saúde assumam responsabilidade técnica de farmácias

Proposta assinada pelo filho do presidente José Antonio Kast enfrenta resistência da ministra da Saúde e de entidades farmacêuticas; mudança ainda não foi aprovada pelo Congresso

Redação Provalfar

Atualizada em
19
/
10
/
2026
12:58

Um projeto de lei apresentado por parlamentares da direita chilena pretende acabar com a exclusividade dos químicos-farmacêuticos na direção técnica das farmácias. A iniciativa, que tramita no Congresso Nacional do Chile, permitiria que outros profissionais e técnicos de nível superior da área da saúde assumissem a responsabilidade pelos estabelecimentos, desde que cumprissem determinados requisitos de formação.

O Projeto de Lei nº 18.719-11, protocolado em 21 de setembro de 2026, é liderado pelo deputado Diego Vergara Rodríguez, do Partido Republicano, legenda do presidente chileno José Antonio Kast. Entre os seis autores está José Antonio Kast Adriasola, filho do chefe de Estado e também deputado republicano.

Apesar da ligação política dos autores com o governo, a medida ainda não foi aprovada. Em 16 de outubro, a própria ministra da Saúde, May Chomalí, manifestou preocupação com os riscos sanitários da proposta.

Quem está por trás do projeto?

A autoria reúne quatro parlamentares do Partido Republicano, um do Partido Nacional Libertário e uma representante do Partido da Gente (PDG).

Além de Diego Vergara e José Antonio Kast Adriasola, assinam a proposta os deputados Cristián Neira Martínez e Ignacio Urcullú Clèment-Lund, ambos republicanos; Pier Karlezi Hazleby, do Partido Nacional Libertário; e Pamela Jiles Moreno, do PDG.

A composição evidencia o protagonismo da direita chilena, embora não exista unanimidade ideológica entre os signatários. Pamela Jiles, por exemplo, possui trajetória anterior em partidos de esquerda, incluindo o Partido Comunista e o Partido Humanista, antes de ingressar no PDG, formação que busca se posicionar fora da divisão tradicional entre direita e esquerda.

Diego Vergara, principal articulador, é engenheiro em Aquicultura, foi prefeito de Paine entre 2008 e 2021 e integrou anteriormente a Renovação Nacional, migrando posteriormente para o Partido Republicano.

Redução de custos é argumento central

Na justificativa, os parlamentares afirmam que aproximadamente 50 municípios chilenos não possuem farmácias, obrigando moradores, especialmente idosos e pacientes com doenças crônicas, a percorrer grandes distâncias para adquirir medicamentos.

Os autores sustentam que a obrigatoriedade de contratar um químico-farmacêutico durante todo o funcionamento representa uma barreira econômica à abertura de estabelecimentos.

O documento estima remunerações entre 1,2 milhão e 2,5 milhões de pesos chilenos para esses profissionais, dependendo da região e da jornada. Os valores são apresentados pelos autores para justificar a flexibilização, sem demonstração de que sua substituição efetivamente reduziria os preços ao consumidor.

A proposta aposta na redução de custos operacionais para estimular novos empreendimentos, ampliar a concorrência e aumentar a oferta de medicamentos.

Entretanto, existe uma questão relevante: embora a justificativa priorize regiões rurais, a alteração legislativa não estabelece restrições territoriais. Dessa forma, a flexibilização poderia alcançar farmácias de todo o Chile, inclusive nas grandes cidades.

Mudança vai além da responsabilidade técnica

Atualmente, o artigo 129-A do Código Sanitário chileno exige que as farmácias sejam dirigidas por um químico-farmacêutico, presente durante todo o funcionamento.

O projeto substituiria essa exigência por uma regra que permitiria a direção por profissionais ou técnicos de nível superior da saúde com formação em farmacologia, dispensação, gestão farmacêutica e legislação sanitária.

A iniciativa também modifica os artigos 101 e 129 do Código Sanitário. No artigo 101, pretende substituir a referência ao químico-farmacêutico nos dispositivos que disciplinam a dispensação de medicamentos prescritos, incluindo produtos sujeitos à comprovação de bioequivalência.

Portanto, a discussão não envolve apenas quem poderá responder administrativamente por uma farmácia. Ela alcança atribuições relacionadas à dispensação e ao acompanhamento sanitário dos medicamentos.

O texto não apresenta uma lista fechada das profissões que poderiam assumir essas responsabilidades nem detalha um procedimento específico de avaliação da equivalência das competências.

Ministério da Saúde e entidades reagem

A ministra da Saúde do Chile, May Chomalí, manifestou objeções à proposta, destacando que determinados medicamentos exigem, pela legislação, a atuação de químicos-farmacêuticos e que sua substituição poderá colocar a população em risco.

O posicionamento evidencia uma divergência entre a iniciativa apresentada por parlamentares ligados à base política presidencial e a avaliação da principal autoridade sanitária do Executivo.

O Colégio de Químicos Farmacêuticos e Bioquímicos do Chile também rejeitou o projeto, argumentando que a direção técnica envolve responsabilidades complexas, como conservação, dispensação, farmacovigilância, supervisão do fracionamento e promoção do uso racional de medicamentos.

A oposição ultrapassa os conselhos profissionais. Sindicatos de farmacêuticos das redes Ahumada, Salcobrand e Cruz Verde, a Associação de Farmácias Independentes do Chile (AFFI) e a Faculdade de Química e Biologia da Universidade de Santiago manifestaram preocupação.

Para essas entidades, o problema do acesso aos medicamentos precisa ser enfrentado por políticas de abastecimento, ampliação da cobertura e fortalecimento dos serviços farmacêuticos, e não necessariamente pela substituição do profissional responsável.

A AFFI também questiona o argumento econômico: substituir o químico-farmacêutico por outro trabalhador não eliminaria a necessidade de cobertura profissional durante toda a jornada, nem resolveria despesas com logística, estoque, estrutura e distribuição.

Existe uma agenda política internacional?

O debate surge durante o governo de José Antonio Kast, que assumiu a Presidência do Chile em março de 2026, em um cenário latino-americano marcado por mudanças políticas e pelo fortalecimento de movimentos conservadores e liberais na economia.

A administração Kast tem defendido a redução de barreiras regulatórias, a simplificação de procedimentos administrativos e o estímulo ao investimento privado. Em abril, os governos chileno e argentino divulgaram um comunicado reconhecendo convergências políticas e econômicas após encontro entre Kast e o presidente Javier Milei.

Nesse contexto, o projeto farmacêutico apresenta afinidade com propostas de liberalização econômica que priorizam competição, redução de custos empresariais e revisão de exigências regulatórias.

Entretanto, essa aproximação ideológica não comprova coordenação internacional. Não foram identificadas evidências de que a iniciativa tenha sido determinada por governos estrangeiros ou esteja diretamente vinculada a conflitos geopolíticos.

A controvérsia chilena revela, sobretudo, uma disputa sobre os limites da flexibilização econômica quando estão em jogo atribuições profissionais essenciais à proteção da saúde pública.

E o que o Brasil tem a ver com isso?

No Brasil, a Lei nº 13.021/2014 reconhece a farmácia como estabelecimento de saúde e estabelece a obrigatoriedade da responsabilidade e assistência técnica de farmacêutico legalmente habilitado. Também exige sua presença durante todo o horário de funcionamento.

Embora a proposta chilena não produza efeitos sobre a legislação brasileira, o debate interessa diretamente à categoria por envolver questões semelhantes às discutidas no país: valorização profissional, redução de custos empresariais, acesso a medicamentos e preservação das atribuições técnicas.

O episódio demonstra que propostas de flexibilização precisam ser analisadas não apenas por seus possíveis efeitos econômicos, mas também por suas consequências sobre as condições de trabalho, a qualidade da dispensação e a segurança dos pacientes.

A discussão também evidencia a importância da organização coletiva, do fortalecimento das entidades representativas e da participação dos farmacêuticos nos debates políticos e legislativos. Afinal, direitos e atribuições profissionais, mesmo quando assegurados por lei, podem ser objeto de propostas de alteração motivadas por diferentes interesses econômicos e políticos.

Para os farmacêuticos brasileiros, o caso chileno reforça a necessidade de desenvolver consciência de classe. Conhecer os próprios direitos é fundamental, mas também é necessário compreender quem formula as políticas públicas, quais interesses estão representados nas decisões e como essas escolhas podem afetar a profissão, a remuneração, as condições de trabalho e a assistência à população.

Nesse cenário, a participação nas entidades representativas, nos sindicatos e nos espaços de discussão política deixa de ser apenas uma questão institucional e passa a integrar a defesa dos interesses coletivos da categoria.

Afinal, se as decisões políticas podem transformar o futuro da profissão farmacêutica, quem está participando das discussões em que esse futuro é definido?

Até 17 de outubro de 2026, o projeto permanecia em seu primeiro trâmite constitucional na Câmara dos Deputados do Chile, sem alteração da exigência legal de direção técnica por químico-farmacêutico.

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