VAREJO FARMACÊUTICO

Queda na venda dos MIPs pode representar avanço do uso racional de medicamentos no Brasil

Dados da Close-Up mostram redução da participação dos medicamentos isentos de prescrição nas vendas das farmácias; para farmacêuticos, movimento pode refletir maior conscientização da população sobre os riscos da automedicação

Redação Provalfar

Atualizada em
18
/
06
/
2026
19:16

Enquanto parte do varejo farmacêutico observa com preocupação a desaceleração dos Medicamentos Isentos de Prescrição (MIPs), profissionais farmacêuticos avaliam o fenômeno por uma perspectiva sanitária. Dados da Close-Up International apontam que os medicamentos de venda livre movimentam atualmente cerca de R$ 24 bilhões por ano no Brasil. Em 2022, os MIPs representavam 15,9% das vendas totais das farmácias brasileiras. Em 2026, esse percentual caiu para 13,5%.

Entre abril de 2022 e abril de 2026, o mercado farmacêutico brasileiro cresceu cerca de 10% ao ano em valor, enquanto o segmento dos Medicamentos Isentos de Prescrição avançou pouco acima de 6% ao ano. Em unidades vendidas, a diferença também chama atenção: o mercado total cresceu aproximadamente 3,3% ao ano, enquanto os MIPs avançaram apenas 1,1%. Os dados foram fornecidos pela Close-Up International.

A mudança chama ainda mais atenção porque ocorreu em um período de aumento da população brasileira, expansão do número de farmácias, lançamentos importantes de produtos e elevada distribuição dos principais OTCs. Ou seja, os fatores mais óbvios não explicam sozinhos a desaceleração. O próprio levantamento aponta hipóteses relevantes: o consumidor pode estar buscando medicamentos diferentes, investindo mais em prevenção e produtos de bem-estar, ou migrando de tratamentos simples para terapias que exigem consulta médica e medicamentos sob prescrição.

Sob a ótica sanitária, esse cenário pode representar um resultado favorável para a saúde pública. Embora sejam classificados como isentos de prescrição, os MIPs não são isentos de riscos. Analgésicos, anti-inflamatórios, descongestionantes, antigripais, antiácidos e outros medicamentos de venda livre podem provocar reações adversas, interações medicamentosas, intoxicações e mascarar doenças quando utilizados de forma inadequada. Nesse contexto, a redução no ritmo de crescimento dessas vendas pode indicar maior cautela da população diante da automedicação e uma busca mais frequente por orientação profissional.

O cenário também reforça uma discussão importante sobre o papel das farmácias no sistema de saúde. Embora possuam atividade econômica e comercial, as farmácias exercem função sanitária essencial e são reconhecidas legalmente como estabelecimentos de saúde. Nesse contexto, a atuação do farmacêutico torna-se estratégica para promover o uso racional de medicamentos, identificar possíveis interações, orientar pacientes e evitar tratamentos inadequados. Quanto mais qualificada for a dispensação e a orientação farmacêutica, menor tende a ser a banalização do consumo de medicamentos.

Essa discussão ganha ainda mais relevância diante da crescente banalização dos medicamentos no Brasil. Em muitos estabelecimentos, a venda de MIPs ainda está associada a estratégias de marketing agressivas, campanhas promocionais e metas comerciais que podem estimular o consumo por impulso. Paralelamente, influenciadores digitais, vídeos virais e memes nas redes sociais frequentemente tratam medicamentos como produtos comuns de consumo, minimizando riscos e incentivando a automedicação. Esse cenário contrasta diretamente com a RDC nº 96/2008 da Anvisa, que estabelece regras para a propaganda de medicamentos e proíbe práticas capazes de estimular o uso indiscriminado desses produtos. A norma foi criada justamente para proteger a população de informações enganosas ou que possam induzir ao consumo inadequado de medicamentos, preocupação que permanece extremamente atual diante da influência exercida pelos ambientes digitais. Em temas relacionados ao uso de medicamentos, a orientação técnica deve estar baseada em evidências científicas e no acompanhamento de profissionais de saúde habilitados, e não em conteúdos produzidos sem o devido respaldo técnico-científico.

Para especialistas, o enfrentamento desse cenário exige maior atuação do Governo Federal, da Anvisa e dos órgãos locais de vigilância sanitária em ações educativas permanentes voltadas ao uso racional de medicamentos, inclusive no ambiente digital. Nesse processo, o farmacêutico deve ocupar posição central, por ser o profissional habilitado para orientar a população sobre o uso seguro, eficaz e responsável dos medicamentos e atuar na prevenção dos riscos associados à automedicação.

Mais do que um indicador de mercado, a desaceleração dos MIPs pode revelar uma mudança importante no comportamento do consumidor brasileiro. Se confirmada, essa tendência poderá representar não apenas uma transformação no perfil de consumo de medicamentos, mas também um avanço na consciência sanitária da população. Em um país ainda marcado pela automedicação, pela banalização dos medicamentos e pela influência crescente das redes sociais sobre decisões relacionadas à saúde, fortalecer a orientação farmacêutica continua sendo uma das estratégias mais importantes para promover o uso racional de medicamentos e proteger os pacientes de riscos evitáveis.

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Fonte dos dados: Close-Up International

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