LEGISLATIVO

Piso nacional de médicos e dentistas aprovado no Senado pode custar R$ 47 bilhões aos cofres públicos enquanto o Brasil caminha para ter mais médicos do que enfermeiros até 2030

Proposta aprovada pela Comissão de Assuntos Sociais eleva o piso salarial das duas categorias para R$ 13,6 mil em jornadas de 20 horas semanais. Debate ocorre em meio à projeção de que o Brasil terá mais de 815 mil médicos em atividade até o final da década.

Redação Provalfar

Atualizada em
10
/
06
/
2026
19:40

A discussão sobre a criação de novos pisos salariais nacionais voltou ao centro do debate político nesta quarta-feira (10), após declarações do presidente do Senado Federal, Davi Alcolumbre, sobre os impactos dessas medidas para as contas públicas. Entre as propostas que voltaram a chamar atenção está o Projeto de Lei nº 1.365/2022, aprovado pela Comissão de Assuntos Sociais (CAS) do Senado, que eleva o piso salarial nacional de médicos e cirurgiões-dentistas de R$ 3.636 para R$ 13.662 em jornadas de 20 horas semanais.

A proposta também amplia de 20% para 50% os adicionais de trabalho noturno e de horas extras, assegura intervalo de descanso durante a jornada e prevê reajuste anual do piso pela inflação. Caso seja definitivamente aprovada pela Câmara dos Deputados, a medida poderá gerar impacto estimado em aproximadamente R$ 47 bilhões aos cofres públicos, considerando os efeitos da valorização salarial de médicos e cirurgiões-dentistas.

O debate ocorre em um momento de forte expansão da Medicina no Brasil. De acordo com o estudo ProvMed 2030, desenvolvido pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) em parceria com o Ministério da Saúde, o país deverá ultrapassar a marca de 815 mil médicos em atividade até o final da década. A projeção aponta uma densidade de 3,63 médicos por mil habitantes, uma das maiores do mundo e superior à média observada em diversos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

O dado que mais chama atenção, entretanto, é a mudança na composição das profissões da saúde. As projeções indicam que, pela primeira vez, o Brasil deverá ter mais médicos do que enfermeiros em atividade. O cenário reflete a rápida expansão dos cursos de Medicina e do número de vagas autorizadas nos últimos anos, alterando significativamente a configuração da força de trabalho em saúde no país.

A aprovação também ocorre em um contexto de forte representação da categoria médica no Congresso Nacional. Levantamentos sobre a composição da atual legislatura indicam que médicos estão entre os grupos profissionais mais presentes no Parlamento, especialmente no Senado Federal, onde diversos parlamentares possuem formação ou trajetória profissional na Medicina. O cenário reforça o debate sobre a capacidade de articulação política da categoria em pautas relacionadas à valorização profissional, condições de trabalho e remuneração.

Ao defender a aprovação da proposta, o relator Fernando Dueire (PSD-PE) afirmou que a ausência de um piso efetivo contribui para a precarização das relações de trabalho e dificulta a fixação de profissionais em regiões mais afastadas dos grandes centros urbanos. O parlamentar também argumentou que a valorização da categoria pode contribuir para ampliar o acesso da população aos serviços médicos.

A discussão ganha relevância em um momento em que o próprio Senado debate os impactos fiscais de novos pisos nacionais. Durante sessão realizada na terça-feira (9), Davi Alcolumbre sinalizou preocupação com propostas que possam ampliar despesas obrigatórias para estados e municípios. Na ocasião, o presidente do Senado afirmou que a aprovação sucessiva de pisos salariais e benefícios para categorias profissionais poderia exigir recursos incompatíveis com a atual realidade fiscal do país, reacendendo discussões sobre os limites entre valorização profissional e sustentabilidade das contas públicas.

Caso a proposta avance na Câmara dos Deputados e seja convertida em lei, o Brasil poderá assistir simultaneamente a dois movimentos históricos: a criação de um dos maiores pisos salariais nacionais da área da saúde para médicos e cirurgiões-dentistas e a consolidação de um cenário inédito em que o número de médicos ultrapassará o de enfermeiros, transformando profundamente a configuração das profissões da saúde nas próximas décadas.

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